A realidade de Pedro e Júlia - PARTE 3

O resto da semana passei com Júlia. Fomos a Praia, andamos de bicicleta, comemos, rimos e dormimos juntos. Mas não tocamos no assunto de sua mãe. Ela não tocou. O que me pareceu estranho, já que eu achava que ela queria separar sua mãe de Gilberto. Só então que me ocorreu que ela estaria procurando alguém pra ajudá-la a esquecer dos dois.

 

Cheguei em casa no sábado e vi que minha secretária eletrônica estava cheia de recados de alguns amigos perguntando por onde eu andava, dizendo pra eu aparecer quando me sentisse sozinho. Ora, eu estava bem ali na Praia, na frente dos olhos de todos e não precisava de companhia, eu estava bem com Júlia. Com ela, eu passava os dias e sonhava todas as noites. Sonhos muito reais que pareciam continuar os momentos que eu passara junto dela. Eu estava apaixonado. Júlia era tudo que eu precisava naquele momento. Ela acabara me ajudando também em relação aos meus Amigos. Não precisava mais deles, nem dos meus cadernos.

 

- Você me ama? – Júlia não cansava de fazer essa pergunta e eu não cansava de respondê-la.

 

- Sim, eu te amo, Júlia.

 

- Faria qualquer coisa por mim?

 

- Qualquer coisa.

 

- Então, acho que chegou a hora de eu lhe fazer um pedido. Aquela ajuda que você disse que ia me dar.

 

- Qualquer coisa – enfatizei. Eu amava aquela menina e já não me importava com o pedido, eu queria ajudá-la simplesmente para vê-la feliz sorrindo para mim.

 

- Quero que você mate o Gilberto.

 

Foi dessa forma: curta e grossa, que Júlia chegou ao ponto que queria. Essa seria a última vez que a teria em meus braços.

Então eu fui. Cego de amor fui até a casa da mãe de Júlia – já tinha tudo planejado, ela mesma teria me dado todas as indicações sobre a casa. A empregada abriu a porta e eu a empurrei contra o chão. Amarrei-a na cadeira para que não saísse dali e coloquei uma fita em sua boca para não chamar por ajuda. Subi as escadas até o quarto de Gilberto. Apontei a arma e ele começou a gritar e perguntar o porquê daquilo.

 

- Vai dizer que você não sabe? – eu estava furioso com ele. O ódio que Júlia sentia por ele, de certa forma havia se transferido para mim – Você matou a família dela!

 

- Não estou entendendo! Você está louco, rapaz! – ele estava desesperado; seus olhos se mantiveram fixos na arma.

 

- Você acabou com a família da JÚLIA e vai pagar por isso!

 

Atirei três vezes contra o peito de Gilberto que caiu para trás com os olhos ainda abertos, mas ele já não se movia mais. Um barulho veio do corredor e a porta do quarto de Gilberto me atingiu e eu caí no chão.

Era a mãe de Júlia, dona Ivete que me derrubara. Não estava entendendo. Ela estava doente, como poderia ter saído correndo pelo corredor e batido a porta com tanta força contra mim?

 

- Meu Deus do céu! O que aconteceu aqui? – seu grito pareceu estremecer a casa toda.

 

- Acabou dona Ivete. Eu acabei com ele. Ele matou seu marido e a irmã da Júlia. Ela vem tentando lhe dizer isso há muito tempo, mas a senhora está doente e não a escutou!

 

- Doente, eu? O Gilberto matou quem? Irmã da Júlia? A Júlia era filha única e ela morreu com o pai  num acidente de carro. Ela sabia do meu caso com Gilberto e nunca aceitou. O Gilberto não matou ninguém! Você está louco!

 

Dona Ivete continuou falando e clamando por Deus. Mas a sua voz era só um ruído distante aos meus ouvidos. Eu só conseguia ouvir Júlia agradecendo pelo que eu havia feito. Obrigada, meu amor. Agora podemos ficar juntos. Venha!

Júlia não era real. Era só mais um Amigo. Só que para este Amigo eu não escrevi nenhuma história; ela me fez participar da história, mas eu acabara interferindo na realidade. Peguei a arma e coloquei um ponto final em tudo. Qualquer coisa para estar junto dela.

A realidade de Pedro e Júlia - PARTE 2

Eu não me achava tão conhecido assim pela Praia. Algumas de minhas histórias foram publicadas no jornalzinho que circula pelas redondezas, mas eu não acho que tenha criado tanta fama. Não aos 23 anos.

Conversamos durante meia hora e ela me contou boa parte de sua vida. As coisas pareciam bem claras agora. A linda garota, chamada Júlia, que surgira da tal sombra seria mais um dos meus “Amigos”. Mas, algo nessa garota me parecia diferente. Eu não a via como um dos Amigos. Ela era... real. Ela estava lá. Tinha me contado tudo, mas não tinha pedido ajuda naquele momento, como disse que faria. Ela marcou um outro encontro na noite do dia seguinte, naquele mesmo lugar.  

 

Fui embora pra casa, tentando me recordar das outras pessoas que “ajudei”. Todas elas tinham uma forma de vulto, algo meio embaçado, não sei explicar bem, e tinham uma voz de pato – aquela voz daquele cara que fez uma denúncia pro fantástico contando as falcatruas do dono de sua própria empresa. Já a Júlia era diferente. Apesar de ter me dito que passava muito tempo na praia, sua pele não estava tão bronzeada, mas eu sentia que ela fazia parte daquilo. Pô, ela até tomou uma maldita água de coco, segurando-o com suas próprias mãos! Será que os Amigos enfumaçados estavam evoluindo?

 

Eram sete da noite quando cheguei no Clube e Júlia ainda não estava lá. Pedi uma água de coco enquanto a esperava. No céu, a lua cheia brilhava e seu reflexo podia ser visto no mar que estava cheio de turistas, aqueles que vão a Praia à noite para beber e dormir na areia. Quando terminei minha água de coco, Júlia apareceu com um lindo vestido branco que ia até seus joelhos e seus pequenos pés descalços, marcavam a areia delicadamente. Ela trazia algo em sua mão.

 

- Me desculpe o atraso, Pedro, mas eu estava procurando por isso – colocou em cima da mesa um empoeirado e recheado álbum de fotos.

 

- Não há porque se desculpar – disse eu, estendendo a mão ao álbum – Sente-se e me mostre o que você trouxe aí.

 

- São só algumas fotos da minha família – disse Júlia enquanto ia passando as folhas do álbum.

 

Enquanto me mostrava as fotos e contava as circunstâncias de cada uma, Júlia ia apontando, em todas elas, um senhor que aparecia sempre no fundo da família. Ele não devia ter mais que 45 anos, cabelos crespos e um olhar que se fixava na mãe de Júlia, Ivete.

 

- Pedro, alguém matou meu pai e minha irmã e eu tenho quase certeza que foi esse cara! – sua voz mudara de repente, estava firme e decidida – Ele é meu padrasto. Ele os matou para ficar com minha mãe.

 

- E sua mãe nunca desconfiou disso?

 

- Acho que não. Logo depois que eles morreram, minha mãe ficou doente e nunca mais falou comigo. Ela só fala com esse tal de Gilberto.

Júlia começou a chorar e segurou minha mão com muita força. Eu me aproximei dela e passei meu braço em volta de suas costas. Ela deitou a cabeça no meu ombro e chorou por algum tempo.

 

- Me ajuda, Pedro. – olhou para mim com os olhos ainda vermelhos de tanto chorar – Preciso da minha mãe de volta, esse cara não é bom pra ela!

 

- Fique tranqüila, Júlia. Estou aqui por você.

 

Quando levantou a cabeça, Júlia me abraçou, segurou minha cabeça e me deu um beijo. Não sei como me senti na hora. Era muito estranho pensar que eu estava ali com aquela garota, tão carente, precisando de ajuda, mas que haveria surgido do nada com a certeza de que eu era a pessoa certa. E era.

 

-

 

A realidade de Pedro e Júlia - PARTE 1

Esta história só foi dividida em partes por causa de seu tamanho.

Desde pequeno costumava brincar com as palavras escrevendo em meu caderno. Sempre gostei de ler. Quando não estou escrevendo, estou lendo. Meus amigos me chamam de “Pedro, o viajante”, porque eu costumo deixar esse mundo, essa dimensão, quando começo a escrever. É uma sensação estranha. É um processo de criação bem diferente – até meio louco, eu diria. Antes de começar qualquer história, essas pessoas aparecem em minha imaginação, não necessariamente quando estou dormindo. Elas vêm e começam a falar comigo, como se eu fosse seu psicólogo, e elas só se acalmam quando eu conto uma história que dê um rumo diferente pra suas vidas – geralmente muito deprimentes e trágicas – só assim, elas desaparecem. É por isso que eu escrevo: para ajudar essas pessoas.

 

Mas, ultimamente não tenho recebido a visita desses meus “amigos”. Será que de um dia pro outro eles não querem mais ajuda, ou minhas histórias eram ruins demais? Isso realmente me preocupava. Apesar de sinistro, eu gostava de fazer aquilo.

-

Estava encostado na cerca que separava a Praia das Ondas da casa dos Martins, olhando as sombras das pessoas que caminhavam pela praia, até que uma daquelas sombras desgrudou-se do corpo a que estava caminhando e veio em minha direção. Levei minhas mãos aos meus olhos e chacoalhei a cabeça para tentar voltar pra realidade – depois de pensar que aquele calor todo poderia estar me fazendo mal – mas, aquela era a realidade: a sombra estava realmente caminhando até mim. Pensei em correr ou até mesmo pular a cerca para entrar na casa, mas minha curiosidade me manteve ali de pé, esperando até que a sombra dissesse o que queria. Conforme foi se aproximando do coqueiro que ficava em frente à casa, a sombra começou a se revelar uma linda garota de olhos claros, pele branquinha – estranha demais para aquele sol todo -, cabelos longos, lisos e loiros. Seu rosto tinha as bochechas rosadas e ao me ver deu um sorriso que iluminou a praia como se fosse o próprio sol, que brilhava com toda sua força naquele dia.

 

- Foi bom te encontrar, Pedro – disse ela, com uma voz aveludada, mas meio aflita.

 

- Foi? – disse eu, ainda coçando os olhos – A gente já se conhece?

 

- Creio que você não me conhece. Mas você é bem conhecido por aí. – seus olhar desviou por um instante – Podemos conversar em um outro lugar?

 

Certamente eu estava desconfiado, mas não sentia medo. Eu estava digamos, numa boa forma e ser abordado por uma garota bonita como aquela parecia perfeitamente normal em um ambiente como aquele.

 

- Podemos ir até o Clube Play – uma pequena barraca que ficava à beira da praia com muitas cadeiras e muita bebida para os banhistas -, é um bom lugar para gente se conhecer melhor.

 

- Tudo bem – disse ela, olhando firmemente para meus olhos -, mas eu já te conheço. Quero conversar com você. Acho que você pode me ajudar.

 

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