Acho que gosto quando chove. Mesmo quando as gotas de chuva caem das nuvens que escurecem ainda mais as noites. A água escorrendo sobre o telhado reflete luzes que não costumamos ver durante o dia e nem em noites enluaradas. O silêncio da madrugada é igualmente agradável. Ouvir o som de nossa própria respiração em momentos calmos nos fazem parar para refletir. Isso não é agradável? Para mim é. As vozes das milhões de pessoas que habitam minha cabeça parecem se acalmar e eu tenho um tempo para escutar uma única voz: a minha. Voz tão esquecida no dia a dia que nos torna máquinas em um mundo que parece já perdido. Seríamos nós os tais cavaleiros do apocalipse? Pois a teoria me parece boa, a medida que todos parecem fazer questão de trabalhar para ver tudo destruído.
Há quantas madrugadas não escuto a voz que me faz querer rasurar algumas palavras em uma folha de papel amassado que encontro embaixo da cama, sempre pronta para receber a tinta da caneta que agora falha a deixar o tubo depois de tanto tempo ociosa? Tanto tempo fez com que essa voz, antes poética e ansiosa por contar suas histórias, virasse um sussurro difícil de escutar.
"O romantismo acabou, meu caro", diz a voz.
Eu reluto em concordar, mas ela insiste. Eis que percebo que o tom não é o mesmo não pela 'inatividade', mas por já não ter mais forças. É uma voz moribunda, como um doente terminal deitado em uma cama de hospital. Tento dentro de mim buscar as razões para argumentar e discordar. Isso não poderia ser verdade. Mas a cada vez que ouvia o sussurro, como um pedido de ajuda, os argumentos se esvaiam como a água da chuva que ainda cai no telhado. Quanto mais lutava, mais sentia uma dor terrível no peito. Mal sabia eu que a voz que eu havia deixado de escutar era a voz do meu próprio coração.
E, assim como uma máquina sem manutenção, seu tempo havia se esgotado. Ele, então, se tornaria obsoleto e pararia de funcionar.
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