O Grande Gregório - Conhecendo o Monstro

O Grande Gregório resolveu ir viajar em um fim de semana prolongado que se apresentou como uma luz no fim do túnel, após uma semana conturbada onde ele não conseguia segurar seus anseios dentro de sua cabeça, que funcionava de forma tão “tranqüila” como um tsunami.

 

Uma viagem para relaxar. Era tudo que ele precisava. Sair daquele meio que tanto lhe incomodava, ver o mundo através da janela de seu carro e não através da janela de um alto edifício de concreto, que só revelava mais edifícios de concreto. Gregório ficava feliz quando via uma nuvem com formato engraçado passando pela janela, já que esse era o maior contato com a natureza que ele tinha a seu alcance.

 

Diante desse turbilhão de pensamentos, o Grande Gregório não pensava em desistir, como já havia feito em diversas vezes antes. A forma como ele encara a vida mudou depois de inúmeras experiências desagradáveis e por dificuldades enfrentadas. Desistir não era uma boa. Sendo assim, ele buscava uma alternativa. Como ele poderia - para traduzir de forma simples seus pensamentos loucos - ver mais nuvens daquelas sem ser através daquela janela?

 

Idéias não faltavam. Porém, ninguém consegue fazer nada sozinho e Gregório sabia disso, mesmo sentindo, novamente, que as paredes se fechavam a sua volta e que, a cada vez que tentava pensar em mudar, sua cabeça latejava como ferida que custava a cicatrizar. A dor era imensa e incessante, algo que se tornou comum na vida de Gregório, como se ele já não tivesse coisas demais para se preocupar.

 

Ele precisaria compartilhar de seus pensamentos/problemas. Foi o que fez. E, para variar, a compreensão foi difícil e ele se viu sozinho de novo diante do Monstro que crescia na sua frente. Monstro esse que era alimentado pelos segundos que se passavam no relógio.

 

Talvez o Grande Gregório fosse mesmo mais um daquele tipo sonhador. Daqueles que vislumbram um mundo em seus pensamentos e corre atrás – mesmo que a passos lentos – desses objetivos. Em seus sonhos, Gregório nunca quis muito, só o necessário para enfrentar a jornada de sua vida de forma agradável e discreta. Tais sonhos, que de tão simples podem se revelar até ingênuos, brigavam com a ambição que se espera de uma pessoa no mundo de hoje. “Sempre pensar grande”, é o que todos dizem. Gregório pensava, mas o “grande” para ele era minúsculo para a maioria das pessoas. Mas assim estava mais do que bom para ele. “É errado pensar assim?”, questionava-se.

 

Sentado no computador de seu trabalho para relatar sua viagem, Gregório notou que ela não servira de nada. Pelo menos não para o que ele tinha objetivado no início. Estava ele lá sozinho, de novo, enfrentando o piscar incansável do seu editor de textos. Ele não descansou, não descobriu alternativa nenhuma para “encontrar as nuvens” e se deparou com um problema ainda maior: ele estava exposto. O Monstro agora conhecia suas fraquezas. Ao tentar compartilhar seus pensamentos, Gregório deu sua última cartada na esperança de que as coisas mudassem. Nada mudou e ele havia sido arremessado de seu cavalo, caído no chão de frente com a lança de seu adversário.

 

A batalha começa. Gregório rola para o canto e recupera sua espada, mas continua caído. Seu cavalo, inquieto, corria em disparada pela arena. O Cavaleiro Negro estava prestes a derrotá-lo. Sua lança era reluzente e sua armadura prateada recebia a luz do sol como uma luz divina, como se Deus já estivesse escolhido o seu vencedor. O Cavaleiro desce de seu cavalo e caminha de forma imponente para cima de Gregório. Ele tenta recuperar suas forças, mas não consegue erguer sua espada. Muito menos levantar-se do chão. O Cavaleiro ficava cada vez maior enquanto se aproximava de Gregório. A arena iluminada, aos poucos, era tomada pela sombra do sedento guerreiro. Não havia platéia, mas Gregório ouvia os gritos de incentivo das pessoas. Ele só não sabia para quem eles torciam. Se para o gigante Cavaleiro Negro ou se para ele mesmo. As paredes da arena se fechavam junto da escuridão que agora o cercava. O Cavaleiro chegou a sua frente. Gregório, por um momento, quando se viu frente a frente com a morte, imaginou que ali poderia estar a saída. Afinal, ele não havia desistido. Ele havia sido vencido por uma força muito maior que a dele.

 

Uma mensagem chega no celular de Gregório. Ele lê e rapidamente digita uma resposta. Tais mensagens tinham se tornado constantes naquele feriado. Alguém que Gregório já tinha se envolvido no passado aparece de novo e demonstra certo interesse pelo rapaz. O amor é uma questão que até hoje atormenta Gregório. Cansado das decepções que sofrera, até isso ele tentava evitar ultimamente. Morre de medo da solidão para o resto de sua vida e, por isso, sempre quebra a cara quando busca demais alguém que lhe complete.

 

Talvez este tenha sido o único ponto positivo de sua viagem. As mensagens o fizeram se sentir mais querido, mais próximo de um dos seus sonhos e distante do medo da solidão. Sempre que respondia, ficava com o aparelho em mãos aguardando por uma pronta resposta.

 

Gregório levanta a cabeça e olha para o céu. O Cavaleiro finalmente começa a falar.

 

-  Levante-se, Gregório. – sua voz era grave e demoníaca – Você se engana se acha que tudo acabará tão fácil. Você não teme a morte e, por mais absurdo que seja, a vê como uma saída. Não estou aqui para facilitar nada para você. Já que você pensa assim, você não irá morrer agora e terá que voltar para enfrentar todos os Monstros que se apresentam. Eu sou apenas um deles e você me criou, como muitos outros.

 

Gregório estava acuado na parede e mal conseguia se mover. Os gritos da platéia que não existia aumentavam cada vez mais e ele resolve responder ao Cavaleiro

 

- Acabe logo com isso. Eu não sei de que Monstros você fala. Não criei nada. Só não tenho mais forças para seguir com minha vida. Se você diz que eu o criei, é porque já estou delirando por não agüentar mais nada disso.

 

A súplica de Gregório não abalou em nada o Cavaleiro.

 

- Sendo assim, você tem mais trabalho do que imagina. Descubra por si só. A dor que eu lhe causaria com minha lança não seria maior do que você irá enfrentar ao descobrir tudo o que procura. Me dá mais prazer sabendo que será dessa forma.

 

Impiedoso, o Cavaleiro sobe novamente em seu cavalo e deixa a arena que volta a receber a luz do sol. As vozes, quase ensurdecedoras, silenciaram,como se tivessem seguido com a brisa que passou.

 

Gregório se vê no vagão do metrô que o leva de volta para casa. As vozes que ouvia já não eram assustadoras, mas causavam um desespero parecido. As conversas eram sempre as mesmas, de pessoas apertadas reclamando da vida ou falando sobre a vida dos outros. Ainda tentando entender o que aconteceu, Gregório puxa os fones de ouvido de sua mochila e liga seu aparelho de mp3 – seu grande refúgio para essas conversas.

 

Enquanto ouvia os repetidos riff´s das músicas do AC/DC, imaginava o que teria acontecido com seu dia. Mais de 8 horas haviam se passado e ele não lembrava de nada, apenas do momento que respondeu a mensagem que recebeu no celular. O confronto com o Cavaleiro o faz parar para pensar quem seria realmente o Monstro da história. Gregório refletiu enquanto um acorde nostálgico da guitarra de Clapton atravessou o fio de seus fones e invadiu seus ouvidos. Ele conhecia bem o verdadeiro Monstro. E a grande batalha estava só começando.

Palavras não revisadas sobre o dia do Grande Gregório

 

O grande Gregório encontrava-se diante de um novo desafio. Cansado, porém disposto, não conseguia deixar de olhar para o canto direito do seu computador, onde se encontra o relógio. A imagem do relógio digital na tela do grande monitor de 17 polegadas causava tristeza em Gregório. “Onde estão os ponteiros?”, questionava-se, ao notar a “demora” que um minuto levava para passar sem ver o movimento de algum ponteiro girando pelos números de um relógio analógico.

 

Gregório era novo naquele lugar e ainda se habituava com as pessoas, os horários e com seu trabalho. E por não ter muito o que fazer, não ter dormido bem na última noite, o sono batia. E forte. Suas pálpebras pesavam toneladas e a força que Gregório tinha para levantá-las era semelhante a de duas pequenas formigas operárias.

 

Mais uma olhada para o relógio e ele volta-se para o sinal latejante do ponteiro sobre a página em branco do seu editor de textos. Como ele gostaria que a cada piscada fosse emitido um alarme sonoro que o ajudasse a ficar acordado. Qualquer som valeria. Até mesmo a irritante buzina do motoboy que havia quebrado o retrovisor de seu carro no caminho para o trabalho.

 

Aquele ambiente ainda causava insegurança em Gregório. “Pessoas engraçadas”, pensava. O mundo corporativo pode ser muito estranho aos olhos de pessoas tão observadoras como ele. E ele precisava ser assim. Não fosse, aquele ponteiro nunca sairia da Linha 1, Coluna 1.

 

À sua esquerda, Marisa, a secretária, emitia ruídos estranhos enquanto digitava. Tobias, o chefão, empostava tanto a voz enquanto falava ao telefone, que parecia um daqueles locutores charlatões de rádio AM lendo cartas dramáticas de suas ouvintes no ar. Mas neste caso era engraçado.

 

Escreveu mais três linhas e o relógio não se mexeu. Agora era a fome que começava a apertar. Certa vez Gregório ouviu alguém dizer que o tempo não é linear. Há momentos que ele parece voar, mas há momentos que ele move-se tão rapidamente quanto uma tartaruga com sono.

 

O telefone toca para recolocar Gregório de volta no mundo. Era alguém que o cobrava sobre um documento que ele havia esquecido em sua casa, por ter saído com pressa. Fica pra amanhã.

 

 

Escreveu mais uma linha, estalou os dedos antes de colocar o ponto, olhou pela janela atrás das persianas entreabertas e viu que começara a chover novamente. O barulho da chuva batendo na janela brigava com o ronco de seu estômago faminto.

 

Ao olhar para a mesa ao lado, a do Tobias, se pergunta: o que faz uma pessoa com um cargo mais elevado ser tão inteligente e tão tapada ao mesmo tempo? Tobias não sabia repôr as folhas na impressora.

 

Ainda lutando contra o sono, vai ao banheiro para molhar o rosto. Toma uma água, arrisca um sorriso para a recepcionista, volta para a sala envergonhado e busca algo para ler. Ele já tinha lido tudo o que estava disponível em cima de sua mesa. Mas, como tinha tempo, leria de novo.

 

A internet seria um bom recurso. Navegou por alguns grandes portais, descobriu que não seria possível acessar seu e-mail pessoal e sentiu-se preso.

 

Eis que nesse momento, o dia do grande Gregório começou a ficar bem pior.

 

O que era empolgação com o novo desafio, tornou-se uma angústia. Ele ainda não estava à vontade e suas pernas já não paravam mais quando percebeu que estava tendo um repentino ataque de ansiedade. Queria conversar, sair na rua para olhar as mulheres - extremamente lindas nessa região da cidade, diga-se - , dar risada. Mas não dava. Não podia. 

 

Quando notou, só tinha o teclado e o cursor latejante na página que já não estava mais em branco e trazia palavras sobre seu dia. Escreveu a última linha enquanto pensava no ponto final. O fez, não revisou nada e fechou o arquivo. Pág 2, Linha 3, Coluna 45.

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