O piano e a casa vazia

 

E lá foi ele puxar o velho banco do piano, lugar que ele sempre sentava para pincelar as primeiras linhas de uma canção que nunca ficou pronta. A mancha do copo de uísque na madeira lembrava de outras noites que ele havia estado lá. Um sorriso amarelo surge em seu rosto de olhos cansados, de linhas que indicavam sua vida sofrida, ao notar que nenhuma mancha de suas lágrimas haviam ficado por ali.

Toques repetidos na mesma tecla. Um dó sustenido que, para ele, representava um grito de agonia vindo do coração. A nota ecoava pela casa, vazia e silenciosa, retrato de sua vida. Mais uma dose. Ele umedece a ponta do lápis, mania que acreditava ter pego em filmes antigos, e rabisca as primeiras linhas. Mais uma vez a canção não saía, somente palavras que o faziam lembrar dela. Ela que nunca esteve e nem nunca estará naquela casa. Ela... que nunca foi, mas sempre será seu grande amor. 


A casa continua vazia. O piano anseia por um acorde. 

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